Concreto! Sólida é a “cidade”. A norma, a convenção... As nossas cidades são pensadas assim. Aprisiona os “mais fracos”, escraviza os que estraçalham suas leis, feitas para infundir a racionalidade, evitar a confusão: conceituar, conceituar, conceituar, conceituar... Fábrica de estereótipos em massa. É preciso ser racional: primeiro se define, depois coloca o “objeto” em seu “decido lugar”. Uns na prisão, outros na rua, outras em grandes mansões e palacetes; uns curtem funk, outros apreciam a Verdadeira Arte, a Verdadeira Música, A Verdadeira Cultura. Cidade ocidental essa nossa!
Uma coisa é esta cidade planejada, arquitetada, elaborada e pensada para colocar tudo em seu devido lugar: segregada! Outra coisa é a condição da vida em cidade, uma realidade caótica, fluída, confusa. A mili ano os modos de vida urbano vem se multiplicando, pipocando pelas frestas da cidade, lugares que não terminam nunca, que tem como sua essência uma “névoa escura” de constelações múltiplas: as ruas, lugar das trajetórias diversas, dos muitos que a transitam. Diferentes espaços, diferentes tempos, diferentes condições sociais, diferentes modos de vivenciar a sua realidade, de se adaptar, resistir ou se entregar às fôrmas burguesas, aos seus jardins europeus, aos seus charutos cubanos, suas fortunas de uísque. Um passeio limpo pela cidade, dentro das capsulas atuais de transporte. Mini-mundo individual que trás o aconchego de uma vida tranquila na cidade.
E nas ruas estão os ratos, que saem a noite em anarquia completa, vandalizando, destruindo e enfeando a paisagem urbana. Somos os jovens de calças rasgadas, maconheiros, drogados, violentos, irresponsáveis e ouvimos uma musica barulhenta. Somos precários, verdadeiros simplórios, pegamos e fazemos, nós mesmos, a nossa música, a nossa roupa, o nosso modo de ver e enxergar o mundo, a nossa poesia, com sede de liberdade. Ouvimos punk, funk, rap... Somos sem vergonhas, trepamos com qualquer um, começamos a nossa vida sexual mais cedo. Engravidamos com 14, 15, 16 anos, podemos até abortar se for preciso. Temos uma ânsia de vivenciar a cidade, se arriscar pelas ruas escurecidas da noite. Derrubar as estruturas para vivermos todos no mesmo andar, numa trama única que conecta tudo e a todos. Natureza e homem nunca seriam tão harmoniosos. Mas duro que não é assim, ainda temos que nos arriscar, sermos marginais para experimentar nada de liberdade. Os ares da cidade libertam... mas não quando ela se escraviza.
E a cidade tem se escravizado, se enclausurado todos os dias em uma sela fria e deserta. Porém em suas veias, ruas, a pulsação nunca termina, é esta a condição da urbanidade. Escrevo contra todos os espetáculos urbanos estáticos e não participantes. O meio urbano é o terreno da ação, de produção de novas formas de intervenção e de luta contra monotonia e a ausência de paixão da nossa vida moderna. Quero tragar a cidade, me perder em seus contornos fazer com que meus passos não apenas toquem os chãos da cidade, mas marquem, deixem rastros e que eu faça parte da construção simbólica e concreta da cidade. Quero traçar a cidade ao meio, me confundir em seus fluxos sem segregar, me integrar em “eletrocutação conjunta” com aqueles que transitam verdadeiramente na rua...
Eu não preciso dizer nada que o turno da noite fala
Só os vagabundo nato com a lata na madrugada
Ta fora da calçada perigo em qualquer calçada
Só os vagabundo nato assalto a mão armada, neguim !
Não tem câo se garante ou então vaza
Pois se todo gato é pardo ta pronto joga a parada
Só bus ou em taxistas semtiro ou em frentistas
São poucos a vista e assim segue a nossa lista [...]
É por aqui que transita entre rato, barata, puta, mendigo
Loucos em todos cantos que for
Empurrando meu carrinho arrastando isopor
Sob a luz da lua a base de fé e suor
Eu to no ponto que é meu sou o dono dessa esquina
Vendo guaravita serva coerpe e aquela mina
Madrugada lucrativa, lunatica inociva
Pra quem dela se faz pra quem dela é feito
Mesmo sendo de cima é elemento suspeito
Mais situação normal pelos lados quinze
Alpinistas urbanos borbadiando as marquize
A meio tantos insanos é só entrato da quinze– Shawlin, Ruas Vazias.